A colheita mecanizada pode se mostrar um dos principais fatores determinantes da redução na vida útil do canavial, devido à rebrota irregular ou deficiente, em função da altura inadequada de corte, do esmagamento de colmos, morte de soqueiras, e da compactação do solo, quando as condições para realização dessa colheita são inadequadas. Em recente pesquisa, Landell (2004), citado por Schmidt e Nussio (2004) avaliou o potencial de rebrotação de 27 variedades de cana-de-açúcar submetidas ao corte mecanizado, observando grande variação entre os materiais testados, sendo que as variedades SP80-1816 e IAC86-2480 mostraram-se superiores, com menor índice de arranquio de touceiras e maior vigor de rebrotação de perfilhos. Em um futuro próximo, esse fator deverá ser considerado na escolha da variedade a ser cultivada para produção de forragens, mediante corte mecanizado.
Além do corte mecânico, uma série de outros fatores influenciam o vigor da rebrota e devem ser criteriosamente avaliados para assegurar a longevidade do canavial. Segundo Manzano et al. (2002), para maior aproveitamento dos talhões, deve ser feita a adubação e o controle de possíveis invasoras, bem como a descompactação do solo, após a ocorrência das primeiras chuvas. Quando essas práticas culturais são realizadas mecanicamente e ao mesmo tempo, denomina-se tríplice operação. Nessa operação, o fertilizante é incorporado no sulco aberto por uma haste subsoladora e o controle das plantas daninhas é feito por pequenos conjuntos de grades.
Embora a tríplice operação seja essencial para permitir rebrotação adequada e elevar a longevidade do canavial, essa operação é dificultada em propriedades que realizam o corte diário da cana pois, nesse caso, o canavial apresenta-se em gradiente de rebrota. Uma alternativa para concentrar as atividades de tratos culturais, ou reforma do canavial, é a ensilagem da cana-de-açúcar, com corte da gleba toda, que permite uniformização do crescimento da rebrota e maior eficiência de controle de plantas daninhas, indicando possibilidade de aumento na longevidade do talhão. Com a ensilagem, pode-se liberar grandes áreas em curto espaço de tempo, além de aumentar a flexibilidade no uso do volumoso.
Ao ensilar os excedentes de produção, constatados em Outubro-Novembro, evita-se a manutenção da biomassa de forragem no campo até a nova safra, evitando as perdas nutricionais das canas “bisadas” e, principalmente, reduzindo os riscos de acamamento que normalmente inviabilizam o corte mecanizado. Da mesma forma, canaviais submetidos a incêndio voluntário ou acidental, ou queimados pela geada, precisam ser usados rapidamente, para evitar a conversão de sacarose e a respiração indesejável de carboidratos, sendo obrigatório assim o processo de ensilagem.
A concentração de atividades no processo de ensilagem resulta em facilidade organizacional e redução na necessidade diária de mão-de-obra, embora represente uma importante elevação nos custos de matéria seca e de nutrientes, quando comparada ao manejo tradicional da cana-de-açúcar sob o regime de capineira. A decisão pela ensilagem implica na necessidade da consideração de custos advindos de maiores perdas e da introdução de operações mecanizadas, quase sempre indispensáveis ao processo.
2 - A Ensilagem da Cana-de-açúcar
A conservação da cana-de-açúcar na forma de silagem é um tema que vem se destacando nos últimos anos, com interesse crescente por produtores e pesquisadores, em função dos benefícios em logística e operacionalidade que esse volumoso ensilado pode apresentar.
Uma idéia da notoriedade assumida pela silagem de cana-de-açúcar nos últimos anos é constatada ao observar-se o número de trabalhos publicados sobre esse assunto nas reuniões anuais da Sociedade Brasileira de Zootecnia, considerada um importante fórum de divulgação da pesquisa zootécnica no Brasil (tabela 1).
Tabela 1. Trabalhos publicados sobre silagem de cana-de-açúcar, nos Anais das Reuniões Anuais da SBZ, nos últimos oito anos. |
Ano | Número de trabalhos | Instituições envolvidas |
| 1997 | 0 | 0 |
| 1998 | 0 | 0 |
| 1999 | 2 | 1 |
| 2000 | 1 | 2 |
| 2001 | 8 | 1 |
| 2002 | 8 | 3 |
| 2003 | 13 | 11 |
| 2004 | 12 | 10 |
A quase totalidade dos trabalhos de pesquisa desenvolvidos com silagens de cana-de-açúcar tem buscado a obtenção de aditivos que, associados a ensilagem, inibam a fermentação alcoólica característica desse material, com vistas a minimizar as perdas observadas quando a cana é ensilada sem a inclusão de aditivos, ou com aditivos ineficientes.
2.1 A fermentação alcoólica e a qualidade das silagens
Na fermentação da cana-de-açúcar ocorre extensa atividade de leveduras epífitas, que convertem açúcar a CO2, água e etanol. Essa conversão acarreta redução no valor nutritivo e elevadas perdas durante a estocagem e fornecimento da silagem aos animais, levando a diminuição no teor de carboidratos solúveis, baixos teores de ácidos lático e acético na massa ensilada, e aumento relativo no teor de FDA das silagens (Alli et al., 1983).
As leveduras não são inibidas pelo baixo pH encontrado nas silagens, sobrevivendo sob limites de pH variando entre 3,5 e 6,5, sendo que algumas espécies são capazes de sobreviver inclusive sob pH inferior a 2,0 (McDonald et al., 1991). A presença de leveduras, na ordem de 106 unidades formadoras de colônia (ufc)/g de forragem (Alli et al., 1983) é considerada indesejável no processo de ensilagem, uma vez que esses microrganismos não contribuem efetivamente para a acidificação e estão associados com a deterioração aeróbia das silagens (Driehuis et al., 1999).
A reação bioquímica da produção de etanol, catalisada pela via fermentativa de leveduras, pode ser descrita da seguinte forma:
glicose + 2 ADP + 2 Pi → 2 etanol + 2 CO2 + 2 ATP + 2 H2O
Talvez a produção de etanol, em detrimento do valor nutritivo da silagem de cana, seja a principal dificuldade apresentada por essa tecnologia e o maior desafio da pesquisa, na busca por processos específicos que controlem adequadamente a população e a atividade de leveduras, sem prejuízo da qualidade da silagem e do desempenho de animais.
Apesar de potencialmente aproveitável como substrato energético para os ruminantes, através da conversão a acetato no rúmen (Chalupa et al., 1964), grande parte do etanol produzido nas silagens é perdido por volatilização, durante a estocagem nos silos, retirada e fornecimento da silagem no cocho (Alli et al., 1982). A produção deste álcool representa perda de aproximadamente 49% de MS dos substratos (McDonald et al., 1991), sendo essa perda composta, principalmente, por carboidratos solúveis.
Além da perda energética, o etanol residual na forragem provoca rejeição de consumo pelo animal, principalmente na fase inicial, após o fornecimento das silagens no cocho (Schmidt et al., 2004a). Contudo, se ingerido, o etanol pode apresentar significativa contribuição energética ao animal.
Estudos in vitro verificaram ligeira elevação na digestibilidade da celulose (6,6%), com a adição de pequenas doses de etanol (Chalupa et al., 1964; Gould et al., 2001), provavelmente devida ao aumento em energia prontamente disponível, mediante a conversão do etanol ingerido à acetato. Entretanto, Pradham e Hemken (1970) observaram a utilização de apenas 45% do etanol após 5 horas de incubação in vitro. Em estudos in vivo, Pradham e Hemken (1970) não verificaram efeito da infusão ruminal de etanol sobre consumo de MS, produção de leite e sólidos totais no leite. Gould et al. (2001) não verificaram efeito da infusão ruminal de etanol sobre a digestibilidade ruminal, intestinal ou total da FDN.
Avaliando o efeito da infusão de doses de etanol marcado com 14C (1, 4 e 8 g/L/dia), em um simulador ruminal de fluxo semi-contínuo (RUSITEC), Durix et al. (1991) observaram elevação de até 40% na produção de ácidos graxos voláteis (AGV´s), principalmente ácido acético (77-80% dos AGV´s totais formados a partir do etanol). Contudo, apenas uma pequena parte do etanol foi convertido a AGV´s e, como não foi verificado a presença de carbono marcado na fase gasosa (CO2 e CH4), a maior parte do etanol foi rapidamente absorvida pela parede ruminal. Os autores afirmaram que, dessa forma, a energia do etanol ingerida pelo ruminante é inteiramente disponível, ou via direta, por absorção, ou mediante conversão a AGV´s no rúmen. Não foi verificado efeito das doses de etanol sobre a degradabilidade da matéria orgânica, do nitrogênio e da fração fibrosa de forragens incubadas nos meios. Segundo os autores, esses fatos indicam que a interação entre etanol e a fermentação de alimentos sólidos é pouco significativa.
Luiz Gustavo Nussio
Professor, Depto. de Zootecnia - USP/ESALQ - nussio@esalq.usp.br
Patrick Schmidt
Zootecnista, Aluno de Doutoramento - USP/ESALQ - patrick@esalq.usp.br
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